Capítulo VIII - João fica sabendo o nome da namorada que pagou o ritual macabro para deixá-lo cego.
Artinizia estava na cozinha auxiliando as companheiras quando de repente se sentiu mal. Entrou em um dos quartos sem que alguma das moças a vissem, e lá ficou para ver se melhorava. Como já fazia um tempo relativamente grande que se ausentara da cozinha, suas amigas começaram a sentir sua falta e mandaram que Aparecida Preta fosse verificar a razão da demora.
Quando Aparecida Preta entrou no quarto em que Artinizia estava, encontrou-a caída no chão, toda enrolada e babando.
— Pelos ventos uivantes que carregam os capetas para os confins dos judas! O que foi que aconteceu com você, Artinizia? – perguntou Aparecida Preta.
— Chame o João Tropeiro, depressa – respondeu Artinizia, com a voz toda enrolada.
Atendendo aquele pedido angustiante e desesperado, Aparecida Preta correu chamar João, gritando:
— João, venha até o quarto que Artinizia está passando mal e quer falar com você.
João Tropeiro, assim que ouviu aquelas palavras, correu até o quarto onde Artinizia se encontrava para saber do que se tratava.
Sentiu um calafrio percorrer seu corpo, pois Artinizia estava completamente transfigurada. Aparecida Preta que já sabia do que se tratava, fez as seguintes recomendações:
— João fique em silêncio pois um espírito baixou em Artinizia e ele quer se comunicar com você.
Após alguns segundos, Artinizia levantou-se, ajoelhou-se perante João Tropeiro e com uma voz extremamente cavernosa começou a falar:
— PERDÃO! PERDÃO!
O nosso amigo não sabia o que falar. Aparecida Preta novamente o orientou, dizendo:
— João, pergunte quem é e o que está querendo de você.
João Tropeiro, com os olhos um tanto arregalados, perguntou:
— Quem é você e o que está querendo de mim?
Depois de um minuto de silêncio, o espírito novamente se manifestou:
— Eu sou Lucinda, sua antiga namorada. Faz três dias que cheguei de Sorocaba e fui diretamente para a casa de minha tia Nhãna de Almeida. Vim com uma doença gravíssima, desenganada pelos médicos, morri hoje às três horas da tarde. Assim que minha alma saiu do meu corpo físico foi levada imediatamente para o inferno, onde o diabo foi recebê-la. Estou sendo cozida em um enorme tacho com óleo fervente e sabe por quê?
— Por quê? – perguntou João.
— Ora, porque quando nós namorávamos eu fiz magia negra para que você ficasse cego. Eu sabia que você era adorado por muitas moças, sabia que eu não era sua única namorada. Com 26um ódio muito grande, paguei uma boa grana para conseguir realizar tamanha maldade contra ti. Lembra-se daquele lenço que te dei? Pois bem, lá estava arraigado todo o meu ódio e a minha maldade.