Capítulo XLIV - A pior decadência
.....................
— Ô irmão, você precisa de serviço, mas não nesse lugar. Tenha paciência homem. Continue procurando um serviço decente que você vai encontrar – falou Luíza com a voz alterada.
— Tá bom, eu vou tentar somente mais uma vez – prometeu João Tropeiro, saindo sem dizer para onde ia.
Andou por quase toda a cidade sem conseguir nada. Quando resolveu vagar pelo mundo, foi abordado por um senhor de boa aparência que lhe perguntou:
— Moço, você está à procura de serviço?
— Sim, estou – respondeu o esfarrapado João Tropeiro.
— Nesse caso já está contratado. Acompanhe-me – solicitou o desconhecido.
Silenciosamente o andrajo Tropeiro o acompanhou. Chegando no pontilhão de Sorocaba, subitamente o sol escureceu e tudo ficou igual ao negror de uma noite sem luar. Até o céu ficou todo estrelado, embora não fosse nem mesmo dez horas da manhã. Muito assustado, o nosso amigo andrajo perguntou ao homem:
— O que é isso, meu senhor?
— Oras, afinal de contas você quer trabalhar ou não? – perguntou o homem.
— Quero – balbuciou João Tropeiro, tremendo como se estivesse com maleita.
Assim como escureceu, o sol clareou novamente e, nessa hora, ele viu um descomunal portão de bronze que dava entrada para um lugar bastante estranho.
Seguindo aquele senhor, chegou até o portão onde foram recebidos pelo porteiro.
— Dê um uniforme a este moço – ordenou seu benfeitor desconhecido, saindo calmamente.
— Vamos – disse o porteiro.
O andrajo João acompanhou-o até um vestiário daquele lugar onde recebeu uma roupa cor de prata.
— Coloque de uma vez o seu uniforme e vamos até o escritório – falou secamente o porteiro ao desditoso João Tropeiro.
No escritório ele recebeu todas as instruções sobre o serviço, combinou o ordenado, assinou um documento de compromisso e foi designado para trabalhar como garçom em um dos refeitórios daquele lugar mais parecido com o próprio inferno.
O primeiro serviço foi servir um jantar de sopa de besouro aos fregueses que iam chegando uns após outros. Quando chegou a sua vez de jantar, João Tropeiro ficou surpreso, pois para ele veio um prato de comida completamente normal, servido pelo cozinheiro do suposto inferno.
Então começou a gostar do serviço. A noite ia dormir num quarto aconchegante e ao amanhecer, após um banho frio, seguia para a cozinha onde tomava café e depois ia servir os fregueses.
Essa era a sua rotina diária.
Estava com três dias de trabalho quando pronunciou uma palavra da qual não se lembra e em seguida surgiu uma mulher toda de branco que lhe disse:
— Moço, esta palavra não se permite falar aqui, porém agora que você já falou significa que não está querendo continuar mais no serviço. Olha, vá até o escritório, peça demissão, receba o seu dinheiro e volte onde estou para que eu possa encaminhá-lo até o portão.
Sem compreender o surpreendente aparecimento dessa mulher no refeitório, João Tropeiro acatou as suas orientações e foi até o escritório do inferno. Assim que viu o líder dos diabos, disse:
— Satanás, eu quero minha demissão porque vou embora.
— Está bem, senhor João Moreira Pedroso – concordou satanás e em seguida falou:
— Tome o dinheiro que ganhou, assine o documento e está dispensado, mas antes vá buscar uma roupa nova para substituir o seu uniforme de garçom.
Dizendo muito obrigado a Satanás, João foi se trocar e depois voltou ao lugar onde a mulher o aguardava. Esta, ao vê-lo, disse:
— Muito bem seu moço. Agora segure em minha mão, vou levá-lo até o portão.
De mãos dadas o nosso amigo acompanhou-a por labirintos disformes chegando em uma porta quadrada com fechadura de aço.
Então ela pegou uma chave chanfrada, abriu a porta, passou com João Tropeiro e disse:
— Agora siga até a sua casa.
Tendo falado dessa maneira ela voltou até aquela porta esquisita, entrou e a fechou.
Muito alegre, com boa aparência e um significativo valor no bolso, João retornou à casa de Luíza, sua irmã. Ao chegar, esta lhe disse:
— Meu Deus do céu. Por onde você andou meu irmão?
— Eu estive trabalhando durante três dias como garçom no inferno.
— Você tá louco, João. Disse que trabalhou três dias, mas faz três anos que estamos procurando por você em toda parte do Brasil e nunca tivemos nenhuma notícia – esbravejou a irmã, muito assustada.