Capítulo XLV - João conta uma história de Jesus… A vinda de Isabel

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    — João, eu fiquei sabendo que você gosta de contar histórias interessantes. Será possível contar-me uma?

    — Claro, será um prazer senhor Antônio – respondeu João Tropeiro.

    Depois de pensar por alguns instantes, o nosso amigo falou:

    — Vou contar uma história que ouvi do meu velho avô, gaúcho de Canoas, Rio Grande do Sul. Cristo estava a serviço da paz, andando por uma velha e poeirenta estrada da Galileia, acompanhado dos seus discípulos. Ao chegarem próximo a um belo sítio, os discípulos sentiram fome e reclamaram para o mestre. Ciente do problema, porquanto ele também estava com fome, disse-lhes: “Esperem-me neste local. Vou até aquele sítio comprar alimentos e logo voltarei”. Assim tendo dito, dirigiu-se até a casa do proprietário daquele sítio, bateu palmas e esperou. Não demorou e saiu um homem bastante mal-encarado para atendê-lo. “Boa tarde, amigo”, cumprimentou-o polidamente Jesus Cristo, mas o elemento não respondeu. Então, tomando a iniciativa, Cristo falou: “Meu amigo, eu quero comprar alguns alimentos. Será que podes me vender?”. “Posso”, respondeu o mal-encarado sitiante. Foi ao celeiro e voltou com meio saco de farinha de trigo. Porém, quando Cristo tirou as moedas do alforje para pagá-lo, este não suportou ver tamanho valor e, deixando-se levar pela tentação de roubá-lo, tirou a espada do cinto e ameaçou Cristo, dizendo: “Passe-me todo esse dinheiro antes que eu corte o seu pescoço”. Diante de tal situação, Jesus imediatamente transformou-o em um belo cavalo e com a própria espada do ladrão cortou um cipó improvisando um cabresto e uma rédea. Colocou-os no homem transformado em cavalo e levou-o em um lugar próximo a sua casa. Deixou-o amarrado em um palanque e voltou com o saco de farinha de trigo para junto dos discípulos. “Pedro, dai-me aquele cabresto e aquelas rédeas que estão em sua canastra e, também, um lombilho?”, pediu Jesus Cristo. “Por quê, Senhor?”, perguntou o discípulo, assustado. “Logo você ficará sabendo”, respondeu Cristo. Voltando ao lugar aonde havia deixado amarrado o cavalo, colocou o cabresto, a rédea, o lombilho e foi puxando calmamente até onde o aguardavam ansiosamente os discípulos. Estes, ao vê-lo, perguntaram: “Senhor, onde conseguiu esse belo animal?”. “Não se preocupem, pois vou contar toda a história”. Depois que o mestre lhes contou a história do cavalo, Pedro montou o animal e continuaram a viagem pela poeirenta estrada. Chegando em uma grande fazenda, próxima do sítio do homem ladrão transformado em cavalo, Cristo procurou o proprietário para alugar uma estalagem e passar a noite com seus discípulos. Vendo o belo animal no qual Pedro estava montado o fazendeiro quis comprá-lo a qualquer preço, mas Jesus lhe disse: “Meu bom amigo, por motivo de inegável justiça, infelizmente não posso vendê-lo, porém alugo-o por um ano”. “Ótimo”, respondeu o fazendeiro, concordando até com o preço do aluguel, pois era um valor justo por causa das boas e variadas utilidades do animal conforme Cristo havia contado. E assim, o animal ficou alugado pelo prazo de um ano. Ao amanhecer, após alimentarem-se muito bem, agradeceram enternecidamente o fazendeiro e partiram em cumprimento de seus nobres afazeres em prol das pessoas. Após um ano, Cristo e seus discípulos voltaram à fazenda onde tinham deixado o cavalo alugado para receber o aluguel. O fazendeiro os recebeu com honra, pagou todo o valor combinado e falou para Cristo: “Realmente o cavalo do senhor trabalhou muito bem em todos os serviços desta fazenda dando-me um bom lucro, mas devo confessar que houve vezes em que meus camaradas precisaram dar algumas chegadinhas de reio nele, por isso, peço-lhe desculpas”. “Ora, o senhor fez o que era preciso, pois eu já havia lhe dito que trabalhador ele era, mas um pouco rebelde”, concluiu Cristo. Depois dessa breve conversa com o fazendeiro, Jesus, acompanhado dos discípulos, retirou-se. Montado no cavalo ia o discípulo Pedro. Atendendo à orientação do mestre, seguiram para o sítio do homem transformado em cavalo. Quando chegaram, Cristo pediu para Pedro apear e, com doce voz, solicitou que todos se retirassem do local deixando-o a sós com o animal. Em obediência ao pedido eles saíram. Foram esperar o mestre do outro lado da estrada. Sozinho, Jesus transformou o cavalo em homem novamente, dizendo-lhe: “Amigo, tome este dinheiro que ganhaste trabalhando honestamente sem necessidade de roubar e veja quanto ganhastes. Agora volte para a sua casa e dê satisfação para a sua esposa”. Depois de dizer estas palavras, Jesus voltou para junto dos discípulos. Enquanto isso, assustado, o ladrão de outros tempos ficou como que paralisado diante das firmes palavras de Jesus Cristo. Ao voltar para casa, sua esposa assim que o viu, foi perguntando: “Por que você desapareceu por todo esse tempo sem ao menos me avisar para onde ia, homem?”. “Minha mulher, você se lembra daquele homem que veio comprar farinha de trigo, aquela vez aqui?”, indagou o homem. “Sim, eu me lembro, mas o que tem a minha pergunta a ver com esse homem?”, perguntou a mulher um tanto aborrecida. “É que naquela ocasião, vendo a grande importância de dinheiro que ele trazia consigo, tentei roubá-lo. Porém, não sei como ele conseguiu me transformar em cavalo, alugando-me para o nosso vizinho fazendeiro. Trabalhei em duríssimos serviços, servi como montaria para o filho do fazendeiro com sua namorada em minha garupa, puxei arado, carroça, rastelo, etc. As vezes eu refugava um pouco por cansaço e nessas ocasiões era chicoteado sem dó. Sabe, eu a via muitas vezes quando passava por esta estrada puxando carroças, mas, como não podia falar, eu relinchava fortemente e até empacava um pouco. Então, me desciam o reio prá valer e eu tinha que continuar o trabalho normalmente”. Ao terminar de contar tudo o que tinha se passado com ele já era noite. Quando estava com sua esposa na cama, ela tocou carinhosamente em suas costas, porém, como ele ainda se encontrava todo dolorido, gritava: “Uuuuiii, uuuuuiii, uuuiii, aiii, aaaii, tem dó mulher, deixe para fazer essas coisas quando eu estiver curado deste sofrimento”. “Bem que eu falei para você não roubar ninguém, mas nunca me atendia e ainda ficava violento dizendo que para ficar rico tinha que roubar e não trabalhar. Dou os meus parabéns ao grande homem que o transformou em cavalo. Você ainda vai continuar roubando ou somente trabalhando em nosso sítio, ganhando bem com a nossa grande produção agropastoril?”. “Mulher, depois desse acontecimento eu te digo: roubar nunca mais, pode crer! O último roubo que tentei me ensinou para sempre”.

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