Capítulo XVIII - As primeiras tropeadas e os casos amorosos
João Tropeiro contratou seu afilhado Pretinho. Tão feio, igual a um saci-pererê, mas de uma bondade e educação fora de série. Além disso era um ótimo cavaleiro. Talvez por estas belas qualidades de caráter o negrinho era até bonitinho e muito querido pelas moças.
No dia exato saíram com uma grande quantidade de animais rumo a vizinha cidade de Pilar do Sul, Estado de São Paulo. Durante a viagem, faziam diversas vendas, compras e barganhas com animais. Junto com eles iam uma cachorra chamada Viana e um cachorro, o Caipira. Viana era ensinada no serviço de ajuntamento de animais, quando alguns se desgarravam da tropa. Caipira também era muito bom nessa arte.
Numa certa ocasião, quando estavam acampados com a tropa, o corajoso tropeiro entrou no mato para fazer sua necessidade fisiológica quando ouviu uma voz meio rouca e fanhosa, que dizia:
— Ai! Ai! Ai! João!
— Credo, como você é estúpido. Tire depressa, tá saindo sangue, não tá enxergando seu tirano?
Abaixado no mato, João ouvia aquela assustadora voz e pensava: “O que será que está acontecendo num lugar tão ermo como este aqui”?
— Anda João! Mas o que você está fazendo abaixado aí? – gritou novamente a horrível voz.
Como João pensou que a voz falava com ele, respondeu:
— Não vês que estou “soltando um barro”? Raios!
Porém, como a voz continuava, João ergueu as calças e resolveu investigar o que acontecia naquele horrível mato. À procura da voz, João adentrava o mato até que, olhando para cima, viu em uma árvore dois pássaros: um João-de-barro e um papagaio choramingão.
João-de-barro, com o bico, tentava tirar um espinho de coroa-de-cristo7 do pé do papagaio chorão.
Quando viu que a voz vinha exatamente do papagaio, João soltou um palavrão:
— Malditos! Por causa de vocês, quase me borrei todo! – em seguida deu um tiro para cima.
O tiro fez com que o João-de-barro arrancasse de uma vez o espinho do pé do papagaio devido ao susto que levou. As duas aves desapareceram naquele vasto capoeirão, deixando João falando sozinho.
Voltando onde estavam os companheiros, contou a história e todos gargalharam gostosamente. Falaram:
— Não reclames João. Se não fosse você o João-de-barro iria judiar muito do coitadinho do papagaio para conseguir tirar o espinho do seu pé.
Assim que aquele incidente foi esquecido, a tropa resolveu seguir adiante com destino à Pilar do Sul.