Capítulo XXVI - O desentendimento com Aníbal Italiano

     Num determinado dia, seu Aníbal Italiano fez a João Tropeiro uma proposta de trabalho. A proposta era a seguinte.

    Nosso amigo trabalharia na construção como servente de pedreiro ganhando oito réis por dia.

    Embora soubesse que seu Aníbal tinha fama de ser estúpido com os empregados, como precisava trabalhar, acabou aceitando a proposta. Trabalhou por quinze dias suportando uma série de impropérios dirigidos a ele através de seu Aníbal, porém mantinha-se humilde. Até que um dia o italiano exigiu que o nosso amigo realizasse quatro tarefas de uma só vez.

    — Tenha dó seu Aníbal, o senhor sabe que seu pedido é impraticável – rosnou João Tropeiro.

    O malcriado italiano não deu ouvidos às palavras de João. Começou a descarregar uma avalanche de palavrões ofendendo sua moral. Por alguns momentos apenas ouviu silenciosamente.

    Quando o sangue lhe subiu à cabeça tornou-se igual a uma fera raivosa e levantando bem alto a enxada rodopiou-a dizendo:

    — Acalme-se Aníbal, ou prefere que eu rache sua cabeça ao meio deixando à mostra o miolo de lesmas que tens?

    João fez a pergunta mas nem esperou pela resposta avançando pra cima do italiano. A sorte é que neste exato momento um empreiteiro de obras conhecido por Chicão, mesmo sabendo que João estava imbuído de razão, não deixou que atacasse seu Aníbal Italiano, segurando-o firmemente. Depois de alguns minutos de silêncio, seu Aníbal, extremamente calmo, disse:

    — Você está certo, João. Como sei que estou errado quero que vá até o meu escritório para receber o que é seu por direito.

    Desta forma espero reconhecer a minha grande falha.

    Bastante calmo, João foi até o escritório e recebeu a quantia de cento e vinte réis. Reconciliou-se com seu Aníbal e voltou à sua residência com dinheiro suficiente para se manter por um período de trinta dias.

    Muito antes de findar o dinheiro recebido do seu Aníbal, João Tropeiro recebeu a proposta de seu Chico Diniz para roçar pastos. Aceitando a empreitada, nosso amigo contratou José Duarte como parceiro nesse trabalho. Ficou combinado que dentro de trinta dias eles entregariam o serviço pronto, porém antes do prazo ajustado o serviço foi entregue. Conforme haviam negociado com o patrão, receberam o valor de quatrocentos réis que foi dividido em partes iguais sem que houvesse problemas entre as duas partes.

    João Tropeiro não precisou aguardar outra empreitada por muito tempo, pois Mundico Padeiro o convidou para fazer algumas fundações de forno de carvão no sertão do Canelá, que ficava, mais ou menos, a trinta quilômetros de Pilar do Sul. Depois de tudo acertado, arrumou seus cacaréus e seguiu ao lugar para executar o serviço. Fez somente uma fundação, pois Mundico estava fracassado financeiramente e não tinha condições de pagá-lo. Assim, logo que recebeu seu dinheiro, voltou à casa. Quando lá chegou, encontrou-se com o seu João de Oliveira, acertando com ele um trabalho de arrastar madeira com boi, no Sertão do Rio Bonito, para ganhar oito réis por dia.