Capítulo XXVII - A domação dos animais
Tropeiro pediu mais um adiantamento a Cristino, que lhe deu quinze réis. Então o famoso Tropeiro foi até o Bairro do Bartar fazer uma pequena compra no armazém do senhor Marcelo.
Este, assim que o viu entrar, foi perguntando:
— Você veio trabalhar para o Cristino?
— Sim – respondeu João.
— Então vai morrer de fome porque ele é um miserável, um pão-duro – disse Marcelo com um tom de voz convincente.
— Obrigado pelo aviso seu Marcelo, mas comigo ele ficará bom – devolveu João Tropeiro num tom mais convincente ainda.
João Tropeiro gastou os quinze réis na compra dos mantimentos essenciais e Marcelo ofertou mais algumas coisas para inteirar a compra. À tardezinha voltou e a querida companheira fez um delicioso jantar para ambos. Depois de se alimentarem bem, forraram o chão com algumas tábuas, se acomodaram e dormiram até o raiar do sol.
Assim que se levantaram, cada um foi cuidar das suas obrigações. Isabel ficou cuidando do serviço caseiro e João foi ajudar o seu Dito Cajuru a tirar leite da vaca. Com a autorização do patrão trouxe dois litros de leite na improvisada moradia. Logo chegou seu Cristino para comandar o serviço. Assim que viu seu Dito, disse-lhe:
— Cajuru, vá por favor buscar os animais na invernada.
Depois de algum tempo Cajuru voltou trazendo seis animais escolhidos conforme o gosto do patrão. Entre esses animais veio um burro tordilho que era famoso pela sua rebeldia.
— Todos os animais já estão na mangueira – falou Dito
Cajuru ao patrão, que exclamou:
— Ótimo! – em seguida chamou Tropeiro dizendo:
— Esses são os animais que separei para você testar. Se você conseguir domar o primeiro continuará trabalhando para mim, caso contrário, estará despedido. Sendo assim, procure usar todo o seu conhecimento.
— Onde estão os arreames? – perguntou João Tropeiro a Cristino.
— Estão todos na cocheira – respondeu Cristino.
Indo à cocheira nosso amigo notou que os arreames estavam muito desgastados pelo longo tempo de uso e não havia condições para montar naqueles animais fortes. Todavia, precisava se arriscar.
— Qual será o primeiro? – perguntou João Tropeiro a Cristino.
— O tordilho – respondeu o patrão.
Diante dessa ordem João passou o laço de pealo e, estendendo o feroz animal ao solo, gritou:
— Dito, coloque o buçá no burro que ele não se levanta.
Depois da recomendação feita, João soltou o pealo e o “quase indomável animal” levantou-se rapidamente. Logo em seguida trouxe o burro para o morão, amarrou-o e arreou-o muito bem, deixando tudo preparado para montar.
Cristino orelhou o burro para que João pudesse montar com mais firmeza. O valente domador, pisando no estribo, foi para o lombo do macho dizendo:
— Seu Cristino, dê um tapa bem forte no focinho deste burro que o bicho sai tossindo.
Após levar um grande tapa com a mãozona de seu Cristino, o burro saiu dando coices, pulando e orneando17 feito um demônio.
Com medo de cair na mangueira cheia de pedra, nosso amigo meteu o rabo-de-tatu sem dó no vão das orelhas do burro e com a ajuda das esporas, conseguiu parar o animal.
Para João Tropeiro, homem destemido e acostumado a montar até em touros selvagens, aquele burrinho foi como uma brincadeira.
Apeou do tordilho, lançando-o de cabo no chão. Seu Cristino pegou em sua mão e disse-lhe:
— Você parece ser um bom domador.
— Ainda não, pois tenho muito a aprender – retorquiu o Tropeiro.
Após este breve diálogo domou mais cinco burros para terminar o serviço. Em seguida perguntou:
— Passei na experiência ou não?
— Claro que você passou. Você é muito bom na arte de domar – respondeu seu Cristino e, em seguida, comentou:
— Este burro já mandou mais de cinco homens para o hospital, todos com fraturas graves. Ele é quase um criminoso.
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Pedro Cópio acreditava nas forças da natureza: no sol, na lua, nas estrelas, no fogo, na água, no vento, nos rios, nas matas, nas marés. Também nos trovões, que nas noites de tempestade, num piscar de olhos, iluminam a negritude da expansão infinita com riscos de fogo multicor que ziguezagueiam o céu, provocando medonhos e incríveis estrondos devido a descargas elétricas que formam turbilhões gerando raios que racham as mais frondosas das árvores e, às vezes, até matam pessoas deixando-as torradas e negras como carvão. Essas forças elementares da natureza desafiam e vencem as mais modernas das tecnologias inventadas pelo homem sem pedir autorização para ninguém. Pedro Cópio, que era um sábio nato, percebeu que todas estas energias existentes nos elementos da natureza, existiam, também, em sua vida, bem como, na vida de todos os seres. Mesmo enfrentando incontáveis protestos da maioria dos seus contemporâneos, aprendeu a controlar e aproveitar a energia dessas ocorrências naturais, com a sua própria força interior, isto é, fé, coragem e amor para com os semelhantes. Conseguia preparar medicamentos em dosagens equilibradas com o potencial curativo de sua natureza mais a dos catastróficos elementos exteriores, para curar as mais terríveis doenças conhecidas em sua época. Pedro Cópio curou até pessoas desenganadas pela medicina, não temendo de modo algum a forte oposição de quem quer que fosse. Sempre dizia:
— Eu faço o bem curando doenças incuráveis. Sendo assim, nada tenho a temer.