Capítulo III - A juventude e a volta da doença do olho

         Havia um ano que seu namoro com Lucinda se acabara. Nesse mesmo ano, Joãozinho começou a sentir que seu olho estava começando a adoecer novamente. Mesmo com aquela enfermidade não deixou de trabalhar, porém não tinha disposição suficiente para tocar o trabalho da fazenda. Dona Maria, sua mãe, sofria muito ao ver o filho naquela situação. Até que num determinado dia, indo até o centro da cidade para fazer compras, encontrou-se com Antônio Corá, velho amigo da família Pedroso. Conversa vai, conversa vem, dona Maria resolveu falar sobre a doença do filho. Antônio Corá, depois de ouvi-la atenciosamente, disse: 

        — Eu não estou mais trabalhando como curandeiro, porém Ditinha, minha esposa, continua com esta missão de levar consolo aos que precisam. 

        Dona Maria sentiu que aquele encontro não tinha sido casual e precisava aproveitá-lo ao máximo. Então disse:

        — Antônio Corá, ainda hoje falarei com o meu filho e o mandarei até a sua casa para que receba a tão esperada cura.

        Despedindo-se de Antônio Corá, dona Maria volta à fazenda com uma incrível esperança. Ter novamente o brilho nos olhos. Assim que chegou chamou o filho, dizendo:

        — Joãozinho, meu filho, como sei que você está sofrendo demais com esse problema no olho, quero que vá até a casa de Antônio Corá, a fim de fazer uma consulta com Nhá Dita, curandeira de mão cheia. Conversando hoje de manhã com seu Antônio Corá sobre a sua situação, ele me recomendou que você deve consultar Nhá Ditinha, que é sua esposa.

        Ouvindo as comoventes palavras de sua mãe, garantiu que naquele mesmo dia faria uma visita a Nhá Ditinha Corá.

        Desanimado, abatido e com muita dor no olho, tomou banho, vestiu-se muito bem, arriou seu melhor cavalo, despediu-se da mãe e seguiu viagem pelas trilhas desconhecidas.

        No caminho fazia perguntas a todas as pessoas que encontrava:

        — Por favor, onde mora Nhá Dita Corá?

        Ninguém sabia informar direito. Calculou que tinham medo, pois como estava muito bem trajado, talvez pensassem ser ele um homem da justiça fazendo investigações.

        Solitário, subiu até uma colina. Sem encontrar uma viva alma, andou aproximadamente mais de um quilômetro até que encontrou um preto velho sentado em uma pedra tirando gostosas baforadas com seu pito de barro. Parou e o cumprimentou:

        — Bom dia senhor. Por acaso sabe onde moram Antônio Corá e sua esposa Nhá Dita Corá?

        O preto permaneceu calado, pensativo, cabisbaixo e finalmente perguntou:

        — De onde você vem, moço?

        — Meu nome é João Moreira Pedroso. Sou filho de Lúcio Pedroso e venho da fazenda dele. Procuro Nhá Corá, a curandeira, porque estou quase cego de um olho e preciso de remédio.

        O preto velho disse:

        — Siga em frente, passe aquele portão, deixe a esquerda e pegue a direita. Atravesse a ponte do rio Gateado e comece a subir aquele morro, passe a casa de Chico Januário e, chegando no fim da Serra, entre do lado direito e verá uma única casa, justamente a de Corá.